Vestir por camadas, as bases do vestuário de montanha

POR PEDRO GONÇALVES 
 TEMPO DE LEITURA: 13 MINUTOS

           

 

Seja qual for a atividade de outdoor que pratique, o princípio do vestuário por camadas é fundamental para o seu conforto e, até mesmo, para a sua segurança. Seja em trekking, num trilho de BTT, em corrida de montanha, em esqui ou alpinismo, ou até num percurso de canoa, estes princípios aplicam-se da mesma forma. E são igualmente válidos independentemente do clima onde se encontre. Por isso, o princípio do vestuário por camadas é um dos conceitos mais importantes do mundo do outdoor.

O princípio do vestuário por camadas

É muito simples. A ideia é segregar em peças diferentes as várias funções que o vestuário tem de cumprir, de maneira a que, por um lado, essas funções sejam otimizadas e, por outro, estarmos sempre preparados para as mudanças climatéricas.

Assim, se estiver a caminhar ao sol num trilho de montanha a meio do dia pode estar a vestir apenas a primeira camada e, no momento seguinte, se o trilho passar para uma zona sombria e exposta ao vento vai poder vestir as outras camadas para se manter quente.

Este princípio é também, muitas vezes, conhecido pelo princípio das três camadas, pois cada uma das camadas cumpre diretamente um destes objetivos:

  • Conduzir a transpiração para o exterior – vamos chamar-lhe respirabilidade
  • Manter a temperatura corporal ideal estável
  • Proteger dos elementos exteriores – chuva, neve, vento

1. Primeira camada

A grande função da primeira camada é expelir a transpiração do seu corpo para a face externa do tecido, onde irá evaporar diretamente para o ar, se não tiver mais nada vestido, ou ser absorvida pela camada seguinte. Assim garante-se que o corpo se mantém seco.

Como a água é um ótimo condutor térmico, se a roupa encostada à pele estiver molhada, ou mesmo húmida, o corpo vai arrefecer muito rapidamente.

Por isso é tão importante escolher bem a primeira camada a usar. O algodão é material “proibido”, pois ensopa completamente com a transpiração e vai retê-la junto à pele – exatamente aquilo que queremos evitar.

Ou seja, se for fazer uma caminhada em montanha, esqueça a t-shirt normal e as calças de ganga. O que precisa é de uma camisola feita de materiais sintéticos, como o poliester ou o polipropileno, por exemplo. Todas as grandes marcas desenvolvem o seu material específico, como o Capilene  ou o Flash Dry.

                                             O princípio do vestuário por camadas é fundamental para o conforto nas atividades ao ar livre

Os preços podem variar muito e a qualidade também. Mas, se o seu orçamento for limitado, este é um dos itens onde pode poupar, comprando marcas mais baratas. O que vai sacrificar? O conforto, não tanto a função. Os melhores modelos secam um pouco mais rápido mas, acima de tudo, vão ter um toque mais agradável (o que é relevante se estiver muitos dias seguidos a usar este tipo de roupa), vão reter menos odores corporais e vão ter um corte mais elaborado e testado, e costuras que não se sentem.

Outro aspeto muito importante ao escolher uma primeira camada é a atividade a realizar. Isto porque estas peças têm várias gramagens. Para atividades muito intensas, onde vá transpirar muito, como a corrida ou o BTT, opte pela gramagem mais leve, mesmo que as temperaturas onde vai andar sejam baixas. Lembre-se que a principal função da primeira camada é expelir a sua transpiração e mantê-lo seco.

Para atividades moderadas, como trekking, esqui de montanha ou alpinismo, por exemplo, realizadas em ambientes de inverno, eu opto quase sempre pelas gramagens intermédias. Nestes casos, a atividade tende a alternar entre momentos de esforço, onde posso transpirar bastante, e momentos mais estáticos, onde preciso de algum poder térmico para manter a temperatura corporal. Mas nunca uso primeiras camadas das gramagens mais elevadas, a não ser que esteja em ambientes muito frios com temperaturas que andem abaixo dos -15ºC. ou se estiver num contexto estático – a fotografar na Serra da Estrela no inverno, por exemplo.

Quanto à forma das primeiras camadas deixo ao seu critério. Há quem prefira golas com fecho, golas redondas, manga curta ou comprida. E há também camisas sintéticas que, se gostar do estilo, são boas primeiras camadas para os ambientes mais estivais.

2. Camada intermédia

A função da camada intermédia é manter a temperatura corporal estável. Mais uma vez, a peça de roupa a usar vai depender da atividade que vai fazer. Embora a função desta camada seja manter a sua temperatura corporal, ela não pode deixar de desempenhar outra função para que o sistema de camadas seja eficaz – transportar a transpiração que foi expelida pela primeira camada e conduzi-la para a camada exterior.

O forro polar ou materiais semelhantes continuam a ser os reis das camadas intermédias. Estes materiais sintéticos são muito leves, respiráveis e oferecem bom isolamento térmico, mesmo quando estão molhados. Para além disso, secam rapidamente. No entanto são algo volumosos quando temos de os guardar na mochila.

Por isso, outros materiais começam a tornar-se também muito populares. Quando está muito frio, as penas tornam-se perfeitas, oferecendo um isolamento térmico muito bom. No entanto, são pouco respiráveis, o que as afasta de hipótese para atividades muito intensas e deixam de cumprir a função de isolamento quando molhadas. A sua capacidade de compressão é extraordinária – um bom casaco de penas ocupa na mochila o espaço de um pacote de litro de leite.

                                                              É fundamental adequar a roupa à atividade que vai praticar

Baseado nas penas, surgiu recentemente um material sintético de grande performance – o Thermoball, da The North Face, que é uma das tecnologias do momento. É um material sintético que simula as penas, tendo uma capacidade de isolamento muito grande e, ao contrário das penas, mesmo molhado consegue oferecer isolamento térmico e seca rapidamente.

Há ainda outra categoria de polares – os polares corta-vento, como o Gore Windstopper. Ao contrário de um polar normal, estes não deixam entrar o vento. O vento é, muitas vezes, o grande responsável por arrefecermos quando estamos em ambientes de outdoor. Ele cria um efeito chamado wind chill, ou seja, a redução da temperatura efetivamente sentida pelo nosso corpo. Como este tipo de polar bloqueia o vento, evita, muitas vezes, que tenhamos que vestir a camada exterior. Na realidade eles incorporam parte da função da última camada. Mas não a substituem completamente – se chover a água vai entrar nestes polares, embora demore algum tempo. Os polares corta-vento podem ser caros, mas vai ver que os vai usar muitas vezes, sem ter de tirar a camada exterior da mochila. Geralmente, não têm um grande poder de isolamento térmico.

A camada intermédia pode ser composta por várias peças

A divisão em três camadas não quer dizer que tenha de ter sempre três peças de roupa vestidas. Já vimos que pode estar a usar apenas a primeira camada se estiver calor. Mas, em ambientes muito frios, a camada intermédia pode ser composta por dois polares, ou um polar e um casaco de penas, ou qualquer outra combinação. Com esta subdivisão da camada intermédia estamos a potenciar a flexibilidade que o princípio do sistema de camadas nos oferece.

A controvérsia da lã

A lã foi o material de eleição durante séculos para expedições polares e outras aventuras em ambientes de temperaturas extremas. No entanto, com a viragem para os materiais sintéticos de alta tecnologia que floresceram durante o século XX, a lã perdeu a sua importância e tornou-se uma fibra mal-amada.

Ainda assim, para quem privilegie materiais de origem natural, a boa notícia é que a lã é uma fibra natural de grande performance. Os filamentos da lã absorvem e libertam naturalmente vapor de água para manter o seu equilíbrio com a humidade da atmosfera que os rodeia – nada mau para um material não tecnológico. Para além disso, a lã não absorve muita água e mantém capacidade térmica se estiver molhada.

Quando comparada com o forro polar, o seu rácio de isolamento/peso, no entanto, não é tão bom. Ainda assim, não é um material a retirar da equação e muitos fabricantes de meias, por exemplo, insistem na lã como o melhor dos materiais. Está por vezes presente na composição de algumas primeiras camadas mas é como camada intermédia que tem a sua melhor aplicação.

3. Camada exterior

Mantendo o princípio das camadas, a função da camada exterior é a de proteger dos elementos externos. Mais uma vez, a respirabilidade tem de estar garantida. E é aqui que as coisas parecem mais estranhas. Queremos um casaco que nos proteja do vento, da chuva e da neve e que deixe sair a transpiração do nosso corpo – isso é possível? A questão é mais sobre como é que isso é possível. Pois bem, o material mais conhecido desta última camada é o Gore Tex, embora haja muitos outros com o mesmo princípio de funcionamento.

Como funciona o Gore Tex?

Gore tex

Sem querer tornar este texto demasiado técnico, o Gore Tex é uma membrana micro-porosa de teflon. Ou seja, é uma tela com furos. E como é que a água não entra e a transpiração sai?

A transpiração está a ser expelida pelo nosso corpo sob a forma de vapor de água. O vapor de água é um gás e, assim sendo, tende a ocupar todo o volume de ar que tem disponível, pelo que as suas moléculas não se agregam. Como cada poro desta membrana é cerca de 700 vezes maior que a molécula da água, o vapor de água da transpiração não tem dificuldade em sair pelos poros. Mas estes mesmos poros são demasiado pequenos para que a chuva ou a neve passem, porque a água em estado líquido agrega-se em gotas e essas gotas são muito maiores do que os poros.

Há alturas em que o Gore Tex não funciona

O Gore Tex, ou outros equivalentes, é a norma para a camada exterior do nosso sistema. Mas será que é o melhor dos materiais em todas as ocasiões?

Se for percorrer um trilho na selva da Amazónia pode deixar o Gore Tex em casa. Se calhar já lhe aconteceu estar a caminhar à chuva num ambiente muito húmido e parecer que está tão molhado como se usasse um casaco de plástico não respirável. O Gore Tex foi desenvolvido para ambientes frios e secos e é neles que melhor funciona. Se a humidade e a temperatura no exterior do casaco forem semelhantes às que temos no interior, o vapor de água não consegue ser expelido. Ou seja, se for caminhar para uma floresta tropical troque o Gore Tex por um simples poncho e vai ver que vai ficar menos molhado dessa forma – ou igual, mas pelo menos vai ter menos calor.

                 Em trekking com chuva, uma camada exterior impermeável é fundamental

Outro caso em que o Gore Tex pode não ser a melhor solução é o de atividades muito intensas, como a corrida ou o BTT. São atividades em que se transpira tanto que a membrana não tem capacidade de lidar com a quantidade de vapor de água, que condensa na parede interior do tecido e passa ao estado líquido. Nestes cenários, exceto se estiver sob chuva torrencial, a minha escolha vai para materiais um pouco menos impermeáveis que o Gore Tex, mas que são muito mais respiráveis. O vento e chuva fraca não entram e a chuva moderada demora a entrar. E são igualmente corta-vento.

A Gore criou o Gore Tex Active para tentar preencher este nicho e, embora seja uma boa escolha para quando chove muito ou passa muitas horas nessas condições, se a chuva for fraca ou o percurso for curto continuo a preferir um material mais respirável.

A combinação das camadas

O objetivo do sistema de camadas é oferecer flexibilidade. Por isso, sinta-se à vontade para combinar as camadas como lhe parecer melhor a cada momento. Nada o impede de usar uma camisola de primeira camada com o Gore Tex imediatamente por cima, sem usar uma camada intermédia. Essa pode ser a melhor combinação se, por exemplo, estiver a caminhar com calor mas à chuva.

O resto do corpo

Ao falar do princípio do vestuário por camadas referi-me sempre ao vestuário para a parte de cima do corpo. É a mais crítica pois é onde se encontram os nossos órgãos vitais, mas naturalmente não podemos ignorar o resto. Este princípio aplica-se também às calças mas, a não ser em condições de frio alpino ou extremo, duas camadas será a norma para cobrir as pernas – umas calças ou calções adequados à temperatura ambiente e umas calças impermeáveis fáceis de vestir por cima das primeiras, caso chova.

Se houver hipóteses de neve já estamos em condições alpinas – nesse caso considere a hipótese de vestir umas calças de primeira camada como faz com as camisolas.

           Em ambientes frios, é importante proteger a cabeça com um gorro e as mãos com luvas

E, ao vestir-se para uma atividade de outdoor não esqueça as extremidades. A ideia de que perdemos 70% do nosso calor corporal pela cabeça é um mito que a ciência já desmontou – o que conta é a quantidade de superfície do corpo que está exposta. No entanto, é igualmente importante proteger a cabeça com um gorro e as mãos com luvas em ambientes frios.

Se reparar, ao combinar um gorro com o capuz do seu casaco Gore Tex, está também a aplicar o sistema de camadas. E use também meias adequadas à temperatura do ambiente onde está, para que mantenha os pés quentes mas sem que transpirem tanto que vai ficar encharcado com a transpiração – é uma das causas para a formação de bolhas.

Antecipe para que o princípio funcione

Independentemente do vestuário que esteja a usar, tenha em consideração que o princípio das camadas só é eficaz se a sua temperatura corporal estiver equilibrada. Se começar a sentir-se demasiado quente, ajuste as camadas, ou seja, tire uma das peças que tem vestidas, ou abra o seu fecho, para aumentar a respirabilidade.

Se agir demasiado tarde, quando já estiver encharcado de transpiração, vai demorar muito tempo a conseguir evaporar essa transpiração e o seu corpo vai arrefecer entretanto, trazendo-lhe desconforto ou colocando a sua saúde em risco.